14.5.06

24 HORAS NA VIDA DUM BOM ESTUDANTE

O bom estudante levanta-se com o sol – o grande pregoeiro do dia que vai começar. Ficar-se na cama, a fazer castelos no ar, seria perder inglòriamente o seu tempo, e, para o bom estudante, o tempo é o tecido de que se faz a vida. Ainda que o calor dos lençóis seja convite ao «fica mais um bocado», o bom estudante faz orelhas moucas a essas palavras – que são loucas.
Na sua mente, levantar cedo não é apenas uma expressão de significado mecânico; é, cumulativamente, expressão de significado espiritual. Levantar cedo é todo um programa de vida – de vida filosófica, moral e intelectual.
Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer – diz o prolóquio popular. Importa, porém, que o crescimento seja não só corporal, mas também de coração e de inteligência. O bom estudante apetece; para além de uma excelente saúde física, um aumento na saúde moral e um acréscimo na cultura: Por cada dia: que passa, quer sentir-se superior ao que era na véspera. O seu programa é ser hoje melhor que ontem, e amanhã melhor do que hoje.
Levantar cedo é, pois, para o estudante, pôr solicitude e inteligência em todos os seus trabalhos, é levar o método a todas as suas actividades, é nada descurar ou fazer negligentemente; é chegar com oportunidade aonde os outros só chegam tarde e a más horas. Levantar cedo é ser avaro do tempo – a única avareza moralmente permitida. Os grandes e insofismáveis triunfos pertencem aos madrugadores – madrugadores no levantar da cama e no levantar do espírito.
O bom estudante levanta-se cedo para, quanto possível, se desobrigar dos seus trabalhos escolares, nas horas da manhã. De: há muito se reconheceu que são essas horas as de rendimento intelectual mais profícuo. Com as energias refeitas durante o sono, a alvorada do seu espirito coincide com alvorada do dia. A frescura das primeiras horas da manhã combina-se com a frescura da sua inteligência. Deitara-se obtuso, levanta-se de espirito lépido. Não aproveitar a argúcia mental das primeiras horas seria grave delito. Mas o bom estudante não comete dessas faltas.
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O bom estudante prepara as suas lições, metódica e inteligentemente, o que, em linguagem corrente, significa: vai devagar, porque tem pressa; procura compreender, em vez de meramente decorar. Mas ir devagar não parece ritmo próprio do bom estudante, dir-se-á. Respondemos à objecção, acentuando que, nas coisas da inteligência, a pressa é inimiga da perfeita assimilação. O saber indelével, bem pessoalizado, feito espírito do nosso espírito, não se ganha em Maratonas de grande velocidade.
O bom estudante não quer um saber que apenas lhe aflore o espírito. Quere-o seu, muito seu, e a posse integral não se consegue passando de raspão pelos problemas a resolver. O bom estudante ama o saber verdadeiro; e não aquele que é apenas constituído pela palha das palavras. Quer o grão das ideias – e, este não sai da casca que o envolve, sem o demorado e metódico esforço.
O bom estudante não é psitacista. Abomina papaguear palavras que não correspondam a ciência inteligentemente assimilada.
Não despreza a memória, o que seria absurdo. Mas põe-a inteiramente ao serviço da inteligência: Não toma por conhecimentos dignos do nome aqueles que simplesmente foram decorados. Êle não ignora que «saber de cor não é saber». A reflexão pessoal, a esgrima intelectual, a expressão de sua própria lavra, constituem, para êle, pontos basilares.
Não quer parecer – mas ser.
Não. Quer iludir o mestre – o que seria iludir-se a si mesmo.
A honestidade mental é, nele, obsessão.
O bom estudante preparou as suas lições. Entra de cara levantada nas aulas. Não desafia o professor a que o chame. Mas não se encolhe. Está preparado para o que der e vier. E se, porventura, é chamado, prefere expor a que lhe tirem do espírito, a ciência, com o saca-rolhas das perguntas.
É nadando que se aprende a nadar. É expondo que se aprende a expor. Todavia, como preparou inteligentemente as suas lições, também não receia que o mestre o interrogue – desde que as perguntas não sejam mero apelo à memória, quando deveriam ser, sobretudo, chamada à inteligência.
O bom estudante prefere o professor que lhe apresente problemas àquele que lhos resolva solicitamente, E por isso saiu aborrecido das aulas onde tudo foi papinha feita, onde não teve dificuldades a vencer. Detesta a passividade. Apetece as aulas que sejam permanente convite ao avanço em profundidade. Se lhe dão, numa das lições, a verdade acabadinha, e, na outra, o ensejo de a descobrir por seu próprio esforço, opta pela segunda dádiva, contra a primeira. Prefere ser cabeça bem feita a ser cabeça atafulhada.
O bom estudante é incapaz de «narizes de cêra», como quem diz de divagações vazias, para passar o tempo, no decurso de uma chamada. Expõe honestamente o que sabe, apresenta as dúvidas que teve, não intruja, nem se intruja. O charlatanismo, a retórica à procura dum assunto, o discursar para entreter, são tudo processos que não cabem na sua ética intelectual. A lisura de espírito é o in hoc signo vinces do seu lábaro.
O bom estudante vive menos da emulação com os seus camaradas do que da emulação consigo próprio. O seu propósito é menos sobrelevar os outros, em vaidosa competição, do que sobrelevar-se a si mesmo, de tal maneira que consiga ser hoje mais culto do que foi ontem, e amanhã mais do que foi hoje. Prefere tomar-se a si como ponto de referência, a tomar os outros.
É fatal que se compare com os camaradas – está claro. Mas nunca dessa comparação extrai a sombra de um despeito, ou a mais pequena parcela de vaidade.

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O bom estudante não alimenta a presunção tola de que faz impecàvelmente os seus trabalhos, logo à primeira. Nem à primeira, nem à segunda. Sabe que será hoje mais perfeito do que ontem, e amanhã mais completo do que no momento que passa. A perfectibilidade é seu programa. Nunca dá a sua educação por acabada. E razão tem para assim pensar, uma vez que o depoimento de, por exemplo, grandes artistas lhe confirma que melhoramos até morrer.
Efectivamente, o bom estudante pode ler isto, algures, do grande pintor japonês Hokusi, que trabalhou até aos 80 anos, e que, a dois passos da sepultura, dizia:
-- Que pena!... Agora é que eu começava a compreender o desenho!... E rematava assim: «Habituei-me a desenhar a forma das coisas, desde os seis anos; aos cinquenta, linha publicado um bom número de álbuns de pintura, mas tudo quanto publiquei; antes dos setenta, foram ensaios, que não merecem duas palavras de atenção. Aos setenta e três, tinha compreendido um pouco da estrutura dos pássaros, dos insectos, dos peixes e, também, os segredos de como nascem as plantas... Teria feito ainda alguns progressos agora e, por certo, aos noventa, penetraria o mistério das coisas, atingindo o estado divino, lá para os cem. Mas só aos cento e dez anos de existência o que eu fizesse teria o ar vivo, exacto, respeitável. Que pena! Daqui por diante é que eu poderia produzir em definitivo».
E uma vez que citámos um pintor japonês, ai vai outra citação, também de nipónico:
«Um guerreiro, na ocasião de aprender a atirar a flecha, põe-se diante do alvo, com duas flechas na mão esquerda.
Observa-lhe o professor:
-- Os principiantes nunca devem ter duas flechas na mão, porque, contando com a segunda, descuram sempre de bem alvejar com a primeira; pense, por cada vez que atirar, que só dispõe de uma flecha».
Este conselho atinge mil coisas. Aqueles que andam a estudar, contam, na véspera, com o dia seguinte, e; de manhã, com a tarde; atrasam, por este modo, a ocasião de se instruírem. É negligência condenável. Quando nos propomos a um fim, é mister dar satisfação imediata ao nosso intuito.
Também o bom estudante faz sempre de conta que não tem duas épocas de exame. Vai ,para a primeira, como se ela fosse única. É que ele têm o culto da perfeição.
O bom estudante é permanentemente polarizado por um mais além, por um excelsior!, não se contenta, em absoluto, com o que faz. Sabe que tem virtualidades para se aperfeiçoar, em cada dia que passa. Mas não se toma de namoro pela sai obra – supondo-a inultrapassável em perfeição. Eça de Queiroz era alguém, como artista, e, no entanto, tem esta dolorosa confissão:
«As minhas obras não contam mesmo para viver com esse «espaço de uma manhã» que Malherbe garante às rosas. Não sei como é: dou-lhes a minha vida toda, e elas nascem mortas; e quando as vejo diante de mim, pasmo que, depois de tão duro esforço, depois de tão ardente, laboriosa insuflação da alma, saia aquela coisa fria, inerte, sem voz, sem palpitação, amortalhada numa capa de côr».
Se um tão notável artista se referia, nestes termos, à sua própria obra – que veleidades poderá ter o estudante incipiente?

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Nas 24 horas do seu dia, o bom estudante reserva uma, pelo menos, para leituras à margem dos livros escolares. Alguém lhe disse – ou ele o adivinhou – que nos livros escolares se não contém o mundo inteiro. E, ou por intuição, ou por conselho dos mestres, vai formando, a pouco e pouco, uma pequena biblioteca de obras-primas, que lhe abrirão perspectivas amplas e fundas sôbre problemas que mal afloram na estreiteza asfixiante dos livros apertàdamente didácticos. As influências decisivamente perturbadoras é nessas leituras, marginais que ele as há-de beber.
A leitura não a faz levianamente. A reflexão é a sua broca na penetração do pensamento alheio. Menos que as palavras, procura assimilar, as ideias. E mais do que as ideias acabadas, o bom estudante prefere problemas para pôr em equação. O seu prazer é pensar, quanto possível, de motu proprio. A leitura não é para ele um fim, mas um meio. Na leitura, não vê o bom estudante apenas mina erudita, mas sobretudo trampolim para o salto da sua inteligência.
Leitura que lhe não traga sério pretexto para a meditação pessoal, não tem as suas simpatias. A leitura em profundidade voltada ao âmago das ideias, ao lógico encadeamento destas, tal a leitura de sua preferência.
O bom estudante lê sempre de lápis na mão, para sublinhar ou a beleza literária, ou a novidade dos problemas, ou a beleza das atitudes, ou a exactidão dum retrato psicológico, ou o rigor dum pensamento. O seu propósito não é voltar páginas, apressadamente, para se dar a ilusão de que leu muito. Não é a quantidade que o seduz – mas a qualidade. Não é o muita, mas o multum.

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Na volta do seu dia, o bom estudante reserva nem que seja apenas meia hora para redigir os seus pensamentos, provocados pela observação dos homens e da natureza, pelas leituras feitas, pelo debruço sobre si próprio, pelas aspirações que o solicitam para o futuro.
E, na redacção do seu borborinho intelectual, procura menos fazer literatura do que ser rigoroso na expressão. Não se namora das palavras, no que estas possuem de oratório, mas no que estas tenham de maleável, para exacta exposição das ideias. É mais filósofo, amigo do pensamento, do que filólogo, amigo das palavras. Desvia-se da retórica, como de coisa peganhenta e fétida. Envergonha-se do estilo de felpuda adjectivação – mero disfarce para encobrir penúria de ideias. Quer o vocabulário ao serviço do pensamento, e não o pensamento subalternizado à musica da palavra. Não quer – honra lhe seja! – nem iludir, nem iludir-se.
Escrevendo, o bom estudante não dá a sua primeira redacção como definitiva – nem. na forma nem no fundo, e, por isso, não se apressa a publicar, Espera que o tempo, o grande e infalível mestre, traga ao de cima, as deficiências da ideia e a falta de. rigor da expressão escrita. Isto não quer dizer que o bom estudante lute com uma insuperável falta de expressão. Essa luta só a travam os desmiolados de emoção e de pensamento. Quem sente e pensa, tem sempre modo de exprimir aquilo que sente e pensa! E se tiver a preocupação de exprimir-se, não no estilo de A ou B, mas no seu próprio, acabará por encontrar; para os seus alvoroços de espírito a linguagem mais elegante, o período mais forte, a palavra mais incisiva. O estilo alheio – justamente porque é alheio – fica-nos, por via de regra. curto nas mangas.
Cada qual tem a sua curva psicológica. Ora o nosso estilo há-de ser precisamente a tradução gráfica dessa curva. A deselegância está em usarmos de voz que não é a nossa.

Nas vinte e quatro horas do seu dia, o bom estudante tem ensejo de conversar com os seus camaradas, com os íntimos de sua casa, com velhos e novos. Pois nunca, na conversa, ele põe rancorosa intolerância. Respeita as opiniões alheias quando estas são honestamente pensadas; nunca arma em oráculo infalível; é firme, sem ser teimoso; discute, não percute; expõe, não impõe; conversa, não faz discursos; não fala sem pensar; é cortês, sem ser sabujo; é amigo de si mesmo, mas ainda o é mais da verdade; é pundonoroso sem ser raivoso. Acima de tudo, para além de tudo, contra tudo, é um carácter sem medo e sem manchar o aprumo feito pessoa, a pessoa feita à imagem e semelhança dum ideal que se pode confessar, sem pejo, e em toda a parte.

0 bom estudante não é um puro espírito. É, como toda a gente; uma alma montada num corpo de carne e osso. E, portanto, nas vinte e quatro horas do: seu dia, não descura a saúde física! O método e a inteligência que pôs na sua vida de espírito translada-os para a sua vida corporal.: Procura pôr um corpo são ao serviço duma alma sã.
O bom estudante não se reclui em confinadas atmosferas. Tem a obsessão do ar livre, dos largos horizontes, da montanha, do mar, do rio, da floresta. Enamora-se das vastas perspectivas que dá o campo, tem náuseas nas apertadas ruas da cidade. Foge para a natureza, sempre que pode.
Todos os desportos que lhe possam melhorar a saúde corporal têm as suas simpatias. Não é que êle os transforme em fins (não os profissionaliza, se assim nos podemos exprimir), antes os considera como simples meios de ascensão do corpo – do corpo ao serviço do espírito. O bom estudante dá sempre primado ao espírito, mesmo nos seus desvelos para com o corpo, É este que vive para o espírito, e não o espírito para o corpo. Corre, salta, rema, nada, faz alpinismo, dá pontapés numa bola de coiro; mas nunca com propósitos de vaidoso exibicionismo. Cultivando a saúde do corpo, mira sempre, e em última análise, a riqueza do espírito.
Cruz Malpique - 24 horas na vida dum bom estudante. Prelúdio, Gazeta dos Alunos do Liceu de Alexandre Herculano, Ano I, N.º 1, Porto, 31 de Janeiro de 1953.

2 Comments:

Blogger filipelamas said...

Muito bom!|

2:40 da tarde  
Blogger Leidy_Laura said...

Gostei muito deu para me despertar

8:08 da tarde  

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