4.4.06

Prefácios

«(...) O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-análise, a confissão de críticos, rol de inteligência, catálogo de ideias. Mas a esplêndida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e mistério. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, há lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se tais almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o génio explui, conta-nos a natureza a sua história. O génio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a língua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rígida encarcera e coalha as personalidades voláteis e difusas.

O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro de um bloco duro, impenetrável. É o sonho cativo num ovo hermético de bronze. As almas emotivas dos grandes visionários, essas conservam aquela graça radiante, aquela omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cósmica e divina. (...)»

Guerra Junqueiro
Prefácio do romance Os Pobres de Raul Brandão