24.3.06

Prelúdio

Escritas * Livros


Aqui há uns meses, mais precisamente em Dezembro, escrevi uma entrada no antigo Pantalassa sobre um jornal de nome Prelúdio (do Liceu Alexandre Herculano no Porto), que o Miguel Oliveira me tinha emprestado e onde se podiam ler, entre tantas coisas fantásticas e de qualidade, poemas belíssimos feitos por rapazotes de 15/16 anos, mais coisa menos coisa. Desse primeiro número cheguei a publicar dois poemas, um de Manuel Alegre e outro de José Miguel Leal da Silva, o cabeçalho do jornal (imagem) com o nome dos redactores e do Prof. Orientador (Dr. Cruz Malpique), de quem já ouvira e lera muito a respeito, como grande pedagogo (não me entendam mal, este era mesmo professor) e promotor de leitura. Recordo o texto introdutório que então escrevi:
«Esta publicação do Liceu Alexandre Herculano, feitinha pelos alunos de então, é uma preciosidade. Eu, que sou um jovem, portanto insuspeito, posso bem dizer que antigamente havia coisas que já não há. Era bem diferente o ensino. Claro que houve a democratização e o país melhorou muito no acesso à educação, sem dúvida. Mas lá que agora já não se fazem coisas como o PRELÚDIO, lá isso não. Faltam professores como o Dr. Cruz Malpique, faltam exigência, rigor, seriedade. Será que não podemos ter isto com a democratização? Será que não podemos ter rigor e bons professores? Podia ir mais longe, mas fico-me por aqui. Ah, e convém dizer que não estou a dizer que todas as escolas são assim, claro que há muitas e honrosas excepções -- lá se ia o meu futuro político.
Julgo mesmo que foi neste número 1 do PRELÚDIO que o Manuel Alegre terá publicado pela primeira vez, a avaliar pela idade que teria na altura. O seu poema "AS ROSAS DA MOCIDADE" virá já a seguir, e muitos ensinamentos... Até mais.Boa tarde.*AEF»
Está ainda por cumprir a promessa de editar mais coisas daquele jornal fantástico, sobretudo se tivermos em conta uma leitura dos tempos, e das capacidades que aqueles jovens já demonstravam, mas lá iremos - é uma promessa!
Por curiosidade, teimosia e sorte, depois de "googlar" na internet, consegui encontrar um dos redactores do jornal, desse primeirinho Prelúdio: o José Miguel Leal da Silva. Foi para deixar uma espécie de prenda, afinal estávamos em Dezembro e o Natal aproximava-se. Julguei, como se fosse para mim mesmo, que esta recordação não seria mau presente.
Agora, que já respondi à pergunta do Leal da Silva, deixo aqui a ligação à sua explicação sobre a fundação do Prelúdio que é muito importante porque esclarece factos menos claros. E, já agora, não resisto, fica um um excerto para abrir o apetite:
«Deixou-me verdadeiramente sem fala, este poemeto escrito há 53 anos. Eu, que dos meus escritos nunca guardei nada [7], que do "Prelúdio" não guardei um número sequer, vim encontrar aqui um bocado de mim, transportado no tempo. Foi interessante, logo no dia de hoje. Acrescento apenas que se chamava Célia, que tinha de facto cabelos loiros e olhos muito azuis.
E fico-me por aqui, algo comovido, como se de um mirante eu pudesse ver os passos todos, bons, maus e assim-assim (estes os piores) que desde aí percorri. Deixarei algumas notas para responder a questões pendentes [8,9,10]. Recordarei que o "Velho Alexandre" [11] está a comemorar o seu Centenário e direi, a fechar, por que razão não vou por lá os meus pés. O argumento pode residir no desconforto de ver por ali, avelhentadas como eu, tantas celebridades; a razão, essa, é uma única, que peço emprestada ao Pavese mas que faço muito minha, agora só neste momento: "Nada é mais insuportável do que o lugar em que se foi feliz."»
Devo dizer que é para mim, e de certeza para o Miguel Oliveira, um prazer e uma grande alegria este Encontro!
O Prelúdio, esse, será aqui divulgado como fonte do nosso prazer e exemplo para pedagogos e seus instruendos... E algo me diz que vamos ter uma grande ajuda...