21.3.06

Mensagem de Fernando Pessoa


ESCRITAS LIVROS

I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez...
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa
~

Baía de Díli ao amanhecer. Fotografia de Ângelo Ferreira.

Inauguro o novo Pantalassa com este magnífico poema, que diz muito de um certo sentimento, um sentimento largo, de braços abertos ao Mundo, à Humanidade - aquilo que queremos neste espaço. Adiciono uma imagem da Baía da Díli, o lugar mais oriental da língua, essa pátria de carne, de sangue, de lágrimas, de alma. Esse Portugal por cumprir é mais do que a mera história dos homens de hoje e de ontem, é um Mundo melhor, de fraternidade e paz - um desejo e uma causa.
Este será um espaço de escritas e leituras, de livros, ah os livros! Será também um espaço da língua portuguesa e das outras, e dos povos e das culturas, procurando cumprir-se o «mar que une». Será uma aprendizagem mais do que um ensinamento. É aprender que nos apaixona, o saber e os saberes.
Um abraço de muita amizade aos outros membros do Pantalassa que aqui se vão aventurar, lançar ao mar. E a todos os navegantes que quiserem saltar para esta nau, esta barcaça que não é imediata, não é certamente apenas aquilo que nela quiserem ver, mas antes um caminho, uma descoberta, uma construção. Aqui não há assim tantas certezas, mas há paixões e vontade, e há dúvida. Mas não há medo.
Sejam pois muito bem-vindos!