31.8.06

Richard Zimler sobre a persistência - a ler

"When I had the final manuscript in my hands, I thought that the hard part was over. I had already secured an American literary agent, who had contacted me after reading one of my short stories in the magazine Puerto del Sol and signed me on after reading a draft of my novel. He began submitting the book to U.S. publishers, one at a time. Each usually took about two months to respond. By the end of 1994, 24 of them, including all the major houses, had turned the book down. Most said that they had liked what they'd read, but that their marketing departments didn't believe the book would actually sell. Some editors said this openly; others intimated it. Lisbon in 1506 might as well have been Mars. One editor even went so far as to say that he enjoyed my novel but had already bought his "Jewish book" for the year.
So there I was with nothing to show for three years of work and two years of waiting. And though I had started another novel, I began each morning by finding myself awake far too early and filled with dread. I started doubting my writing and my pursuit of the writing life.
At that point, I very easily could have abandoned my hopes for publication. Indeed, the idea was suggested to me on more than a few occasions. What saved me, I now realize, is that I believed deeply in the book and felt that I owed it to the story, if not myself, to keep trying. And I happen to think that that particular sense of debt I felt to my work was the key to my persistence. You must envision your novel as an entity in itself, a work that you, as its author, need to promote toward publication, no matter the obstacles and knowing full well that you might not get help from anyone else.
Since American publishers obviously weren't about to take a risk on it, I decided, given that the novel was set in Portugal, to try a publisher there. I contacted Quetzal Editores, which was recommended to me by two writer acquaintances of mine. The head of the house agreed to read my manuscript in English.
Three months later, when I called to find out her reaction, the editor asked me to come to her office in Lisbon, a good two hundred miles from Porto. This was not necessarily a good sign, because the Portuguese, being a bit old-fashioned, do not like to conduct business over the phone, even if it's to give a rejection. So I took a three-hour train ride, then a taxi to her office, preparing myself for another major heartbreak. After a few pleasantries, her first words, in Portuguese of course, were, "So what would you like on the cover?"
Much to my disbelief and joy, Quetzal Editores accepted my novel, publishing the Portuguese edition in April of 1996. It was translated by José Lima, a well-known local literary translator. It received mostly wonderful reviews and shot straight to the best-seller list. One day I was watching a book program on television about the novels on the best-seller list. The host was discussing each in descending order. Mine was not number ten or nine. It wasn't eight or seven. By about number five, I figured that my book had already fallen off the list and into the Land of Lost Books, where most every novel ends up, usually sooner rather than later. The last book mentioned, however, number one on the fiction list, was mine. My reaction, along with instantly bursting into tears, was to feel an overwhelming sense of gratitude.

14.5.06

24 HORAS NA VIDA DUM BOM ESTUDANTE

O bom estudante levanta-se com o sol – o grande pregoeiro do dia que vai começar. Ficar-se na cama, a fazer castelos no ar, seria perder inglòriamente o seu tempo, e, para o bom estudante, o tempo é o tecido de que se faz a vida. Ainda que o calor dos lençóis seja convite ao «fica mais um bocado», o bom estudante faz orelhas moucas a essas palavras – que são loucas.
Na sua mente, levantar cedo não é apenas uma expressão de significado mecânico; é, cumulativamente, expressão de significado espiritual. Levantar cedo é todo um programa de vida – de vida filosófica, moral e intelectual.
Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer – diz o prolóquio popular. Importa, porém, que o crescimento seja não só corporal, mas também de coração e de inteligência. O bom estudante apetece; para além de uma excelente saúde física, um aumento na saúde moral e um acréscimo na cultura: Por cada dia: que passa, quer sentir-se superior ao que era na véspera. O seu programa é ser hoje melhor que ontem, e amanhã melhor do que hoje.
Levantar cedo é, pois, para o estudante, pôr solicitude e inteligência em todos os seus trabalhos, é levar o método a todas as suas actividades, é nada descurar ou fazer negligentemente; é chegar com oportunidade aonde os outros só chegam tarde e a más horas. Levantar cedo é ser avaro do tempo – a única avareza moralmente permitida. Os grandes e insofismáveis triunfos pertencem aos madrugadores – madrugadores no levantar da cama e no levantar do espírito.
O bom estudante levanta-se cedo para, quanto possível, se desobrigar dos seus trabalhos escolares, nas horas da manhã. De: há muito se reconheceu que são essas horas as de rendimento intelectual mais profícuo. Com as energias refeitas durante o sono, a alvorada do seu espirito coincide com alvorada do dia. A frescura das primeiras horas da manhã combina-se com a frescura da sua inteligência. Deitara-se obtuso, levanta-se de espirito lépido. Não aproveitar a argúcia mental das primeiras horas seria grave delito. Mas o bom estudante não comete dessas faltas.
***

O bom estudante prepara as suas lições, metódica e inteligentemente, o que, em linguagem corrente, significa: vai devagar, porque tem pressa; procura compreender, em vez de meramente decorar. Mas ir devagar não parece ritmo próprio do bom estudante, dir-se-á. Respondemos à objecção, acentuando que, nas coisas da inteligência, a pressa é inimiga da perfeita assimilação. O saber indelével, bem pessoalizado, feito espírito do nosso espírito, não se ganha em Maratonas de grande velocidade.
O bom estudante não quer um saber que apenas lhe aflore o espírito. Quere-o seu, muito seu, e a posse integral não se consegue passando de raspão pelos problemas a resolver. O bom estudante ama o saber verdadeiro; e não aquele que é apenas constituído pela palha das palavras. Quer o grão das ideias – e, este não sai da casca que o envolve, sem o demorado e metódico esforço.
O bom estudante não é psitacista. Abomina papaguear palavras que não correspondam a ciência inteligentemente assimilada.
Não despreza a memória, o que seria absurdo. Mas põe-a inteiramente ao serviço da inteligência: Não toma por conhecimentos dignos do nome aqueles que simplesmente foram decorados. Êle não ignora que «saber de cor não é saber». A reflexão pessoal, a esgrima intelectual, a expressão de sua própria lavra, constituem, para êle, pontos basilares.
Não quer parecer – mas ser.
Não. Quer iludir o mestre – o que seria iludir-se a si mesmo.
A honestidade mental é, nele, obsessão.
O bom estudante preparou as suas lições. Entra de cara levantada nas aulas. Não desafia o professor a que o chame. Mas não se encolhe. Está preparado para o que der e vier. E se, porventura, é chamado, prefere expor a que lhe tirem do espírito, a ciência, com o saca-rolhas das perguntas.
É nadando que se aprende a nadar. É expondo que se aprende a expor. Todavia, como preparou inteligentemente as suas lições, também não receia que o mestre o interrogue – desde que as perguntas não sejam mero apelo à memória, quando deveriam ser, sobretudo, chamada à inteligência.
O bom estudante prefere o professor que lhe apresente problemas àquele que lhos resolva solicitamente, E por isso saiu aborrecido das aulas onde tudo foi papinha feita, onde não teve dificuldades a vencer. Detesta a passividade. Apetece as aulas que sejam permanente convite ao avanço em profundidade. Se lhe dão, numa das lições, a verdade acabadinha, e, na outra, o ensejo de a descobrir por seu próprio esforço, opta pela segunda dádiva, contra a primeira. Prefere ser cabeça bem feita a ser cabeça atafulhada.
O bom estudante é incapaz de «narizes de cêra», como quem diz de divagações vazias, para passar o tempo, no decurso de uma chamada. Expõe honestamente o que sabe, apresenta as dúvidas que teve, não intruja, nem se intruja. O charlatanismo, a retórica à procura dum assunto, o discursar para entreter, são tudo processos que não cabem na sua ética intelectual. A lisura de espírito é o in hoc signo vinces do seu lábaro.
O bom estudante vive menos da emulação com os seus camaradas do que da emulação consigo próprio. O seu propósito é menos sobrelevar os outros, em vaidosa competição, do que sobrelevar-se a si mesmo, de tal maneira que consiga ser hoje mais culto do que foi ontem, e amanhã mais do que foi hoje. Prefere tomar-se a si como ponto de referência, a tomar os outros.
É fatal que se compare com os camaradas – está claro. Mas nunca dessa comparação extrai a sombra de um despeito, ou a mais pequena parcela de vaidade.

***

O bom estudante não alimenta a presunção tola de que faz impecàvelmente os seus trabalhos, logo à primeira. Nem à primeira, nem à segunda. Sabe que será hoje mais perfeito do que ontem, e amanhã mais completo do que no momento que passa. A perfectibilidade é seu programa. Nunca dá a sua educação por acabada. E razão tem para assim pensar, uma vez que o depoimento de, por exemplo, grandes artistas lhe confirma que melhoramos até morrer.
Efectivamente, o bom estudante pode ler isto, algures, do grande pintor japonês Hokusi, que trabalhou até aos 80 anos, e que, a dois passos da sepultura, dizia:
-- Que pena!... Agora é que eu começava a compreender o desenho!... E rematava assim: «Habituei-me a desenhar a forma das coisas, desde os seis anos; aos cinquenta, linha publicado um bom número de álbuns de pintura, mas tudo quanto publiquei; antes dos setenta, foram ensaios, que não merecem duas palavras de atenção. Aos setenta e três, tinha compreendido um pouco da estrutura dos pássaros, dos insectos, dos peixes e, também, os segredos de como nascem as plantas... Teria feito ainda alguns progressos agora e, por certo, aos noventa, penetraria o mistério das coisas, atingindo o estado divino, lá para os cem. Mas só aos cento e dez anos de existência o que eu fizesse teria o ar vivo, exacto, respeitável. Que pena! Daqui por diante é que eu poderia produzir em definitivo».
E uma vez que citámos um pintor japonês, ai vai outra citação, também de nipónico:
«Um guerreiro, na ocasião de aprender a atirar a flecha, põe-se diante do alvo, com duas flechas na mão esquerda.
Observa-lhe o professor:
-- Os principiantes nunca devem ter duas flechas na mão, porque, contando com a segunda, descuram sempre de bem alvejar com a primeira; pense, por cada vez que atirar, que só dispõe de uma flecha».
Este conselho atinge mil coisas. Aqueles que andam a estudar, contam, na véspera, com o dia seguinte, e; de manhã, com a tarde; atrasam, por este modo, a ocasião de se instruírem. É negligência condenável. Quando nos propomos a um fim, é mister dar satisfação imediata ao nosso intuito.
Também o bom estudante faz sempre de conta que não tem duas épocas de exame. Vai ,para a primeira, como se ela fosse única. É que ele têm o culto da perfeição.
O bom estudante é permanentemente polarizado por um mais além, por um excelsior!, não se contenta, em absoluto, com o que faz. Sabe que tem virtualidades para se aperfeiçoar, em cada dia que passa. Mas não se toma de namoro pela sai obra – supondo-a inultrapassável em perfeição. Eça de Queiroz era alguém, como artista, e, no entanto, tem esta dolorosa confissão:
«As minhas obras não contam mesmo para viver com esse «espaço de uma manhã» que Malherbe garante às rosas. Não sei como é: dou-lhes a minha vida toda, e elas nascem mortas; e quando as vejo diante de mim, pasmo que, depois de tão duro esforço, depois de tão ardente, laboriosa insuflação da alma, saia aquela coisa fria, inerte, sem voz, sem palpitação, amortalhada numa capa de côr».
Se um tão notável artista se referia, nestes termos, à sua própria obra – que veleidades poderá ter o estudante incipiente?

***

Nas 24 horas do seu dia, o bom estudante reserva uma, pelo menos, para leituras à margem dos livros escolares. Alguém lhe disse – ou ele o adivinhou – que nos livros escolares se não contém o mundo inteiro. E, ou por intuição, ou por conselho dos mestres, vai formando, a pouco e pouco, uma pequena biblioteca de obras-primas, que lhe abrirão perspectivas amplas e fundas sôbre problemas que mal afloram na estreiteza asfixiante dos livros apertàdamente didácticos. As influências decisivamente perturbadoras é nessas leituras, marginais que ele as há-de beber.
A leitura não a faz levianamente. A reflexão é a sua broca na penetração do pensamento alheio. Menos que as palavras, procura assimilar, as ideias. E mais do que as ideias acabadas, o bom estudante prefere problemas para pôr em equação. O seu prazer é pensar, quanto possível, de motu proprio. A leitura não é para ele um fim, mas um meio. Na leitura, não vê o bom estudante apenas mina erudita, mas sobretudo trampolim para o salto da sua inteligência.
Leitura que lhe não traga sério pretexto para a meditação pessoal, não tem as suas simpatias. A leitura em profundidade voltada ao âmago das ideias, ao lógico encadeamento destas, tal a leitura de sua preferência.
O bom estudante lê sempre de lápis na mão, para sublinhar ou a beleza literária, ou a novidade dos problemas, ou a beleza das atitudes, ou a exactidão dum retrato psicológico, ou o rigor dum pensamento. O seu propósito não é voltar páginas, apressadamente, para se dar a ilusão de que leu muito. Não é a quantidade que o seduz – mas a qualidade. Não é o muita, mas o multum.

***

Na volta do seu dia, o bom estudante reserva nem que seja apenas meia hora para redigir os seus pensamentos, provocados pela observação dos homens e da natureza, pelas leituras feitas, pelo debruço sobre si próprio, pelas aspirações que o solicitam para o futuro.
E, na redacção do seu borborinho intelectual, procura menos fazer literatura do que ser rigoroso na expressão. Não se namora das palavras, no que estas possuem de oratório, mas no que estas tenham de maleável, para exacta exposição das ideias. É mais filósofo, amigo do pensamento, do que filólogo, amigo das palavras. Desvia-se da retórica, como de coisa peganhenta e fétida. Envergonha-se do estilo de felpuda adjectivação – mero disfarce para encobrir penúria de ideias. Quer o vocabulário ao serviço do pensamento, e não o pensamento subalternizado à musica da palavra. Não quer – honra lhe seja! – nem iludir, nem iludir-se.
Escrevendo, o bom estudante não dá a sua primeira redacção como definitiva – nem. na forma nem no fundo, e, por isso, não se apressa a publicar, Espera que o tempo, o grande e infalível mestre, traga ao de cima, as deficiências da ideia e a falta de. rigor da expressão escrita. Isto não quer dizer que o bom estudante lute com uma insuperável falta de expressão. Essa luta só a travam os desmiolados de emoção e de pensamento. Quem sente e pensa, tem sempre modo de exprimir aquilo que sente e pensa! E se tiver a preocupação de exprimir-se, não no estilo de A ou B, mas no seu próprio, acabará por encontrar; para os seus alvoroços de espírito a linguagem mais elegante, o período mais forte, a palavra mais incisiva. O estilo alheio – justamente porque é alheio – fica-nos, por via de regra. curto nas mangas.
Cada qual tem a sua curva psicológica. Ora o nosso estilo há-de ser precisamente a tradução gráfica dessa curva. A deselegância está em usarmos de voz que não é a nossa.

Nas vinte e quatro horas do seu dia, o bom estudante tem ensejo de conversar com os seus camaradas, com os íntimos de sua casa, com velhos e novos. Pois nunca, na conversa, ele põe rancorosa intolerância. Respeita as opiniões alheias quando estas são honestamente pensadas; nunca arma em oráculo infalível; é firme, sem ser teimoso; discute, não percute; expõe, não impõe; conversa, não faz discursos; não fala sem pensar; é cortês, sem ser sabujo; é amigo de si mesmo, mas ainda o é mais da verdade; é pundonoroso sem ser raivoso. Acima de tudo, para além de tudo, contra tudo, é um carácter sem medo e sem manchar o aprumo feito pessoa, a pessoa feita à imagem e semelhança dum ideal que se pode confessar, sem pejo, e em toda a parte.

0 bom estudante não é um puro espírito. É, como toda a gente; uma alma montada num corpo de carne e osso. E, portanto, nas vinte e quatro horas do: seu dia, não descura a saúde física! O método e a inteligência que pôs na sua vida de espírito translada-os para a sua vida corporal.: Procura pôr um corpo são ao serviço duma alma sã.
O bom estudante não se reclui em confinadas atmosferas. Tem a obsessão do ar livre, dos largos horizontes, da montanha, do mar, do rio, da floresta. Enamora-se das vastas perspectivas que dá o campo, tem náuseas nas apertadas ruas da cidade. Foge para a natureza, sempre que pode.
Todos os desportos que lhe possam melhorar a saúde corporal têm as suas simpatias. Não é que êle os transforme em fins (não os profissionaliza, se assim nos podemos exprimir), antes os considera como simples meios de ascensão do corpo – do corpo ao serviço do espírito. O bom estudante dá sempre primado ao espírito, mesmo nos seus desvelos para com o corpo, É este que vive para o espírito, e não o espírito para o corpo. Corre, salta, rema, nada, faz alpinismo, dá pontapés numa bola de coiro; mas nunca com propósitos de vaidoso exibicionismo. Cultivando a saúde do corpo, mira sempre, e em última análise, a riqueza do espírito.
Cruz Malpique - 24 horas na vida dum bom estudante. Prelúdio, Gazeta dos Alunos do Liceu de Alexandre Herculano, Ano I, N.º 1, Porto, 31 de Janeiro de 1953.

7.4.06

Professor Agostinho da Silva


Professor Agostinho da Silva (1906-1996)


Tarde e a más horas, mas mais vale tarde do que nunca, uma homenagem simples a um grande Português, a um grande Homem. Nunca tive o gosto de conhecer pessoalmente o Professor, mas recordo-me bem, quando era ainda miúdo, das suas Conversas Vadias, que me deixavam preso ao ecrã, quando o ecrã ainda valia a pena - hoje fico praticamente pelo Livro Aberto, futebol (para não dar o falso ar de intelectual) e pouco mais. No dia do seu funeral fiquei impedido de o acompanhar, e teria sido um acto excepcional, eu que nem gosto nada de funerais. As palavras todas são a mais, por isso fico por aqui, algumas fotografias e um poema roubado ao Almocreve das Petas.
No Dia do Falecimento de Agostinho da Silva [m. a 3 Abril 1994]
"Não sei já, Caterina, se és chinesa/ou se Índia te tomou e és indiana/ou de ébano te vejo se africana/ou se és eternamente portuguesa/e sendo portuguesa a todas tens/porque em ti, Caterina, eu amo o mundo/e para assim te amar nele me fundo,/sabendo que o meu bem é não ter bens,/que a minha maior posse é não ter nada/e com tudo eu estar já sem saber/se morto vivo ou vivo de morrer"
[Agostinho da Silva, De Camões a Natércia, in jornal Quinto Império, nº6, 1991]
~

Policiers du monde entier

O trabalho de Francisco José Viegas aparece distinguido num artigo sobre policiais do Mundo Inteiro na Revista Lire francesa. Tal é motivo de alegria no Pantalassa. Pelo menos é meu, porque eu admiro o FJV e considero o reconhecimento justo. Vale a pena ler:


Policiers du monde entier
par Christine Ferniot, André Clavel, Alexandre Fillon, Lire, avril 2006
Portugal
Francisco José Viegas
Les inspecteurs Jaime Ramos et Filipe Castanheira passent quelques jours de vacances aux Açores, près de Porto Formoso. «Les îles, ce n'est pas bon pour le moral», affirme le premier, quarante-cinq ans, conscient de vieillir chaque jour un peu plus. «Le plus grand des dangers est invisible. Ce sont les rêves, les cauchemars qui se succèdent, d'abord celui-ci, après celui-là. Ils nous liquident, comme les îles», assène-t-il encore. Le second fume et boit trop - son médecin lui a conseillé de se surveiller -, cuisine à merveille, aimant à atteindre la perfection en mélangeant les saveurs. Il va lui falloir se secouer un peu. Un corps a été retrouvé au matin dans une petite crique excentrée. Le cadavre est celui d'une plantureuse femme en short kaki. Célibataire d'une trentaine d'années, la rousse Rita Calado Gomes avait pris une chambre à l'hôtel Bahia Palace. Sa voiture a été abandonnée à l'aéroport de Ponta Delagada. S'est-elle noyée? A-t-elle été assassinée? Parmi les dix-huit photos contenues dans l'appareil de la défunte, l'une représente un homme dans un appartement plein d'ombre, souriant à l'objectif. «Une enquête, se souvient Filipe Castanheira, doit être conduite avec lenteur...» Mélancoliques et envoûtantes, Les deux eaux de la mer distillent un charme noir en même temps qu'elles excitent les papilles gustatives. Il faut retenir le nom du Portugais Francisco José Viegas, maître en atmosphère et en désenchantement. A.F.

6.4.06

Género: Romance
Autor: José Rodrigues dos Santos
Editora: Gradiva
Um cheirinho...
"A mensagem enigmática foi encontrada entre os papéis que um velho historiador deixara no Rio de Janeiro antes de morrer.
MOLOC NINUNDIA OMASTOOS
Tomás Noronha, professor de História da Universidade Nova de Lisboa e perito em criptanálise e línguas antigas, foi contratado para descodificar esta estranha cifra. Mas o mistério que ela encerrava revelou estar para além da sua imaginação, lançando-o inesperadamente na pista do mais bem guardado segredo dos Descobrimentos: a verdadeira identidade e missão de Cristóvão Colombo.
Baseado em documentos históricos genuínos, O Códex 632 transporta-nos numa surpreendente viagem pelo tempo, numa eventura repleta de enigmas e mitos, segredos encobertos e pistas misteriosas, aparências enganadoras e factos silenciados, num autêntico jogo de espelhos onde a ilusão disfarsa o real para dissimular a verdade."
E eu acrescento que tudo isto é envolvido por um romance inesperado que adocica e dá algum colorido ao livro...

4.4.06

Prefácios

«(...) O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-análise, a confissão de críticos, rol de inteligência, catálogo de ideias. Mas a esplêndida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e mistério. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, há lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se tais almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o génio explui, conta-nos a natureza a sua história. O génio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a língua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rígida encarcera e coalha as personalidades voláteis e difusas.

O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro de um bloco duro, impenetrável. É o sonho cativo num ovo hermético de bronze. As almas emotivas dos grandes visionários, essas conservam aquela graça radiante, aquela omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cósmica e divina. (...)»

Guerra Junqueiro
Prefácio do romance Os Pobres de Raul Brandão

3.4.06

Prelúdio

A publicação de dois poemas do jornal "Prelúdio", ainda no anterior Pantalassa, levou-me (nos) a um feliz encontro com um dos seus fundadores, o José Miguel Leal da Silva. Havemos de voltar a esse magnífico encontro apenas possível devido a esta maravilha tecnológica que é a Internet. Por hoje fica mais um pedaço dessa importante memória, que será alvo, doravante, de uma abordagem sistemática neste espaço. Um abraço de amizade ao Eng. José Miguel Leal da Silva.

Pinheiros

Ao Manuel Alegre Duarte

Pinheiros que aí estais no alto das encostas,
Beijados pelas águas dos ribeiros,
Pinheiros que jazeis no cimo dos outeiros,
Ouvi meus ais, meus brados,
Troncos perdidos no negro dos valados,
Emergindo dos tufos dos salgueiros,
Velhos de longas barbas, já curvados,
Por entre os castanheiros...
Tristes lembranças de velhas amizades,
Sois vós, pinheiros das encostas,
Que, como camponesas de mãos postas,
Rezais, contritos, à hora das Trindades...

José Miguel Leal da Silva (6.º ano)
in Prelúdio, N.º 3, Gazeta dos Alunos do Liceu de Alexandre Herculano, Porto, 31 de Março de 1953

2.4.06

"A Criação do Mundo"

«Todos nós criamos um mundo à nossa medida. O mundo longo dos longevos e curto dos que partem prematuramente. O mundo simples dos simples e o complexo dos complexos. Criamo-lo na consciência, dando a cada acidente, facto ou comportamento a significação intelectual ou afectiva que a nossa mente ou a nossa sensibilidade consentem. E o certo é que há tantos mundos como criaturas. Luminosos uns, brumosos outros, e todos singulares. O meu tinha de ser como é, uma torrente de emoções...»

Miguel Torga, A Criação do Mundo
(prefácio do autor à tradução francesa)
Que o "novo" Pantalassa possa ser o mar que liga todos estes mundos. Sintam-se livres para nele navegarem!

30.3.06

Concurso "O Escritor Famoso"



Fruto da iniciativa, principalmente, da Maria do Rosário do Divas & Contrabaixos, está no ar mais um concurso "O Escritor Famoso". Vale a pena dar lá um salto e, já agora, participar.

24.3.06

Prelúdio

Escritas * Livros


Aqui há uns meses, mais precisamente em Dezembro, escrevi uma entrada no antigo Pantalassa sobre um jornal de nome Prelúdio (do Liceu Alexandre Herculano no Porto), que o Miguel Oliveira me tinha emprestado e onde se podiam ler, entre tantas coisas fantásticas e de qualidade, poemas belíssimos feitos por rapazotes de 15/16 anos, mais coisa menos coisa. Desse primeiro número cheguei a publicar dois poemas, um de Manuel Alegre e outro de José Miguel Leal da Silva, o cabeçalho do jornal (imagem) com o nome dos redactores e do Prof. Orientador (Dr. Cruz Malpique), de quem já ouvira e lera muito a respeito, como grande pedagogo (não me entendam mal, este era mesmo professor) e promotor de leitura. Recordo o texto introdutório que então escrevi:
«Esta publicação do Liceu Alexandre Herculano, feitinha pelos alunos de então, é uma preciosidade. Eu, que sou um jovem, portanto insuspeito, posso bem dizer que antigamente havia coisas que já não há. Era bem diferente o ensino. Claro que houve a democratização e o país melhorou muito no acesso à educação, sem dúvida. Mas lá que agora já não se fazem coisas como o PRELÚDIO, lá isso não. Faltam professores como o Dr. Cruz Malpique, faltam exigência, rigor, seriedade. Será que não podemos ter isto com a democratização? Será que não podemos ter rigor e bons professores? Podia ir mais longe, mas fico-me por aqui. Ah, e convém dizer que não estou a dizer que todas as escolas são assim, claro que há muitas e honrosas excepções -- lá se ia o meu futuro político.
Julgo mesmo que foi neste número 1 do PRELÚDIO que o Manuel Alegre terá publicado pela primeira vez, a avaliar pela idade que teria na altura. O seu poema "AS ROSAS DA MOCIDADE" virá já a seguir, e muitos ensinamentos... Até mais.Boa tarde.*AEF»
Está ainda por cumprir a promessa de editar mais coisas daquele jornal fantástico, sobretudo se tivermos em conta uma leitura dos tempos, e das capacidades que aqueles jovens já demonstravam, mas lá iremos - é uma promessa!
Por curiosidade, teimosia e sorte, depois de "googlar" na internet, consegui encontrar um dos redactores do jornal, desse primeirinho Prelúdio: o José Miguel Leal da Silva. Foi para deixar uma espécie de prenda, afinal estávamos em Dezembro e o Natal aproximava-se. Julguei, como se fosse para mim mesmo, que esta recordação não seria mau presente.
Agora, que já respondi à pergunta do Leal da Silva, deixo aqui a ligação à sua explicação sobre a fundação do Prelúdio que é muito importante porque esclarece factos menos claros. E, já agora, não resisto, fica um um excerto para abrir o apetite:
«Deixou-me verdadeiramente sem fala, este poemeto escrito há 53 anos. Eu, que dos meus escritos nunca guardei nada [7], que do "Prelúdio" não guardei um número sequer, vim encontrar aqui um bocado de mim, transportado no tempo. Foi interessante, logo no dia de hoje. Acrescento apenas que se chamava Célia, que tinha de facto cabelos loiros e olhos muito azuis.
E fico-me por aqui, algo comovido, como se de um mirante eu pudesse ver os passos todos, bons, maus e assim-assim (estes os piores) que desde aí percorri. Deixarei algumas notas para responder a questões pendentes [8,9,10]. Recordarei que o "Velho Alexandre" [11] está a comemorar o seu Centenário e direi, a fechar, por que razão não vou por lá os meus pés. O argumento pode residir no desconforto de ver por ali, avelhentadas como eu, tantas celebridades; a razão, essa, é uma única, que peço emprestada ao Pavese mas que faço muito minha, agora só neste momento: "Nada é mais insuportável do que o lugar em que se foi feliz."»
Devo dizer que é para mim, e de certeza para o Miguel Oliveira, um prazer e uma grande alegria este Encontro!
O Prelúdio, esse, será aqui divulgado como fonte do nosso prazer e exemplo para pedagogos e seus instruendos... E algo me diz que vamos ter uma grande ajuda...

21.3.06

Mensagem de Fernando Pessoa


ESCRITAS LIVROS

I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez...
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa
~

Baía de Díli ao amanhecer. Fotografia de Ângelo Ferreira.

Inauguro o novo Pantalassa com este magnífico poema, que diz muito de um certo sentimento, um sentimento largo, de braços abertos ao Mundo, à Humanidade - aquilo que queremos neste espaço. Adiciono uma imagem da Baía da Díli, o lugar mais oriental da língua, essa pátria de carne, de sangue, de lágrimas, de alma. Esse Portugal por cumprir é mais do que a mera história dos homens de hoje e de ontem, é um Mundo melhor, de fraternidade e paz - um desejo e uma causa.
Este será um espaço de escritas e leituras, de livros, ah os livros! Será também um espaço da língua portuguesa e das outras, e dos povos e das culturas, procurando cumprir-se o «mar que une». Será uma aprendizagem mais do que um ensinamento. É aprender que nos apaixona, o saber e os saberes.
Um abraço de muita amizade aos outros membros do Pantalassa que aqui se vão aventurar, lançar ao mar. E a todos os navegantes que quiserem saltar para esta nau, esta barcaça que não é imediata, não é certamente apenas aquilo que nela quiserem ver, mas antes um caminho, uma descoberta, uma construção. Aqui não há assim tantas certezas, mas há paixões e vontade, e há dúvida. Mas não há medo.
Sejam pois muito bem-vindos!